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menteconspiradora

Um Novo Dia


Joana acordava, fios de cabelo colados há testa devido ao suor de um sono agitado, não sei sobre o que sonhou, não entro nesses mundos ainda, mas sei que não foi coisa boa de certeza, o corpo estava mole e cansado de quem passou uma noite mal dormida, talvez ainda pensasse na tarde do dia anterior, ou talvez tenha sonhado que quem passara por ela a chorar fosse o Jorge, pobre Jorge pensou ela, alguém que a ama incondicionalmente e que por acaso até é amado, não da mesma maneira, mas é amado, mas o que os olhos vêm são algo mais forte do que aquilo que o coração sente.

Ele acorda também agora, mas na sua testa não há suor, há apenas o olhar de quem parece estar dez anos mais velho, o corpo está vergado, não pelo peso do tempo, apenas vergado pela força que o empurra para baixo, uma força de tal maneira forte que o impede de andar de cabeça levantada, que o impede de olhar em frente e apenas o deixa contemplar o mais que evidente chão, onde a sua alma rasteja desde ontem.

Ela dirige-se para um banho quente na fria manhã, talvez um banho que lhe tire a sujidade de cima, porque razão é que beijou o Samuel? Porque razão não correu atrás de quem ama? Em vez disso, deixou-se levar por quem não gosta, por quem nada sente, por quem já sentira algo em tempos mas que a fizera passar por uma reles, mentindo-lhe e tratando-a não como a uma mulher mas como a um animal de estimação que sem vontade própria faz o que lhe mandam. O Jorge não é assim, respeita-a mais do que ele se respeita a ele próprio, olha que mau exemplo este o oito e o oitenta na mesma balança, um que toma tudo como garantido e outro que acha que nunca nada lhe pertence, à quem diga que a virtude está no meio termo, um talvez tenha a capacidade de aprender sobre esse meio termo, outro é apenas um idiota chapado que acha que ou estão comigo ou contra mim, mas se Jorge pode chegar ao meio termo têm de ser ela a ajuda-lo, sozinho ele é apenas um veiculo sem motorista na estranha estrada da vida que quer chegar a algum lado mas sem ninguém para lhe mostrar o melhor caminho.

Ele transpôs a porta do banheiro, toalha enrolada à volta da cintura, cabelo molhado, dois cortes na cara, as lâminas de barbear não foram feitas para pessoas que não têm mão firme ou que as seguram pensando em outras coisas, caminha ainda de rosto virado para o chão, aproxima-se a hora em que terá de seguir caminho para o trabalho e é lá que a vai encontrar, não tem nada para lhe dizer, sente uma lágrima a escorrer pelo rosto enquanto pensa nela e no que vira, é que ela até podia ter outro, ela é livre de escolher quem quer amar, mas o parvalhão do Samuel é que não, “Esse parvo de primeira dissera-me em tempos que ela ou seria dele ou não seria de mais ninguém e de mim não seria de certeza, “És um mole, Jorge!”, “Ela não quer homens moles!”, dissera-me ele, quando descobriu que eu gostava dela, e agora vejo-a agarrado aquela besta, isto é demais, não voltarei a falar com ela, não o posso fazer, tenho de deixar de dar parte fraca, que fiquem os dois agarrados um ao outro para toda a eternidade, que apodreçam juntos!”

Ela antes de sair de casa colocou um sorriso, um sorriso interior que passou para o exterior quando pela cabeça lhe passou o bonito pensamento de que hoje diria a Jorge o que pensa dele, que o ama, que o quer, que é a ele que ama e a mais ninguém.

Uma mulher que passava passeando o seu filho pela mão olhou-a enquanto sorria, “Está alegre a rapariga, as coisas correm-lhe bem de certeza, o amor anda no ar! Talvez seja do cheiro da primavera que é trazido pelo vento norte destes últimos dias de inverno!”

Encontros


O motorista do 90 até que foi um bom homem, esperou o suficiente para que o pobre coitado e ofegante Jorge entrasse no mesmo, o cabelo desgrenhado pela corrida feita contra o vento e as faces vermelhas devido ao frio, uma delas devido ainda à estalada, mas que o frio ocultava, davam-lhe um ar de bêbado, quem o olhasse e não o conhecesse acharia que era mesmo um pobre e desgraçado que procurara na bebida uma escapatória para a vida, mas quem o conhece diria em sua defessa que está bêbado sim, mas de um estranho amor, que tanto o empurra para cima, como o deixa cair numa queda livre sem rede que só o chão o apara.


Mostrou o passe ao motorista e procurou um confortável lugar, talvez um daqueles com o ar condicionado bem por perto para que ele possa aquecer o enregelado corpo, já que para o frio da alma nem as fornalhas do inferno têm remédio, talvez o seu remédio esteja bem perto, um remédio do sexo feminino, com as semelhanças de um anjo, um sol capaz de o aquecer e o trazer de volta há terra ou o estorricar de mais, pegou no telemóvel e começou a jogar, talvez assim ele não tenha de pensar em mais nada a não ser em acabar o entediante jogo.


A pensativa Joana descia ainda a rua, parava a olhar para as montras com ar de quem ia comprar algo mas apenas o fazia para desviar a cabeça de outros assuntos, pensava no pobre Jorge, pensava na forma como ele saíra da sala com uma lágrima que escorria pela sua face, tomara uma decisão, de manhã comprimentálo-ia com um beijo, colaria os seus lábios aos dele, ele já o merece, mas a forma como ele saíra da sala dizia-lhe que talvez de manhã fosse demasiado tarde, pensou voltar para trás, ainda deu uma série de passos na direcção contrária à que tomara, mas depressa caiu em si, “Não sei onde ele está!”, pegou no telemóvel e começou a procurar o numero dele, encontrara-o, ia a começar a chamada quando uma voz do outro lado da rua a fez parar o seu movimento, levantou a sua cabeça e viu alguém que a chamava e atravessava a rua a correr, um brilho apareceu nos seus olhos, um sorriso formou-se na sua boca, sentiu o seu coração num bater apressado, algo lhe dizia para correr para ele, mas ao ver melhor estacou, o seu sorriso recolheu, o brilho do olhar tornou-se baço, o coração voltou ao ritmo normal e a única coisa que lhe saiu foi um frio.
– À, és tu!
– Olá Joana, então tudo bem? Há muito que não te via!
– Tudo bem, Samuel, sabes como é, caminhos diferentes, desencontros.
– Bem, estás linda! Há muito mesmo que não te via, até já me tinha esquecido como és bela!
– A sério? Sempre pensei que fosse inesquecível!
– E és, foste a melhor namorada que tive e fui um parvo, mas ás vezes fazemos coisas sem pensar e a única coisa que nos resta é o arrependimento.
– Acredita que é verdade, se o arrependimento matasse eu já não estava aqui há muito, mas a vida é feita de erros, temos de viver com eles.
– Tens toda a razão, vais para os barcos certo? Posso acompanhar-te até lá, há tanta coisa para pôr em dia.
– Podes acompanhar-me claro!


Seguiram então o seu caminho, falando talvez de coisas do passado talvez de coisas do presente ou até do futuro, falaram durante todo o caminho, umas vezes ouvia-se alguém rir, talvez até fossem os dois a faze-lo, mas a verdade é que a conversa parecia estar agradável, nesta coisa de se juntar um ex-namorado com a sua ex-namorada só pode dar nisto, o porto fluvial com partida para o Montijo estava já ao virar da esquina, ele aproximou-se dela e roubou-lhe um beijo, ela deixou-se levar pelo mesmo, mas algo os fez parar quando o andar apressado de um homem que chorava passou por ambos, os olhos do Samuel sorriam, os de Joana não, mas olhavam os dele, soltou-se do beijo e correu para o porto e quem sabe para o barco a verdade é que correu, interiormente sentia-se suja, só pensava no Jorge onde estaria ele o que estaria a fazer?


Jorge limpou as lágrimas e caminhou rua acima, caíra há terra, a dor latente no seu coração, era a única coisa que sentia, afinal ele tinha razão ela tinha outro.

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