Encontros
O motorista do 90 até que foi um bom homem, esperou o suficiente para que o pobre coitado e ofegante Jorge entrasse no mesmo, o cabelo desgrenhado pela corrida feita contra o vento e as faces vermelhas devido ao frio, uma delas devido ainda à estalada, mas que o frio ocultava, davam-lhe um ar de bêbado, quem o olhasse e não o conhecesse acharia que era mesmo um pobre e desgraçado que procurara na bebida uma escapatória para a vida, mas quem o conhece diria em sua defessa que está bêbado sim, mas de um estranho amor, que tanto o empurra para cima, como o deixa cair numa queda livre sem rede que só o chão o apara.
Mostrou o passe ao motorista e procurou um confortável lugar, talvez um daqueles com o ar condicionado bem por perto para que ele possa aquecer o enregelado corpo, já que para o frio da alma nem as fornalhas do inferno têm remédio, talvez o seu remédio esteja bem perto, um remédio do sexo feminino, com as semelhanças de um anjo, um sol capaz de o aquecer e o trazer de volta há terra ou o estorricar de mais, pegou no telemóvel e começou a jogar, talvez assim ele não tenha de pensar em mais nada a não ser em acabar o entediante jogo.
A pensativa Joana descia ainda a rua, parava a olhar para as montras com ar de quem ia comprar algo mas apenas o fazia para desviar a cabeça de outros assuntos, pensava no pobre Jorge, pensava na forma como ele saíra da sala com uma lágrima que escorria pela sua face, tomara uma decisão, de manhã comprimentálo-ia com um beijo, colaria os seus lábios aos dele, ele já o merece, mas a forma como ele saíra da sala dizia-lhe que talvez de manhã fosse demasiado tarde, pensou voltar para trás, ainda deu uma série de passos na direcção contrária à que tomara, mas depressa caiu em si, Não sei onde ele está!, pegou no telemóvel e começou a procurar o numero dele, encontrara-o, ia a começar a chamada quando uma voz do outro lado da rua a fez parar o seu movimento, levantou a sua cabeça e viu alguém que a chamava e atravessava a rua a correr, um brilho apareceu nos seus olhos, um sorriso formou-se na sua boca, sentiu o seu coração num bater apressado, algo lhe dizia para correr para ele, mas ao ver melhor estacou, o seu sorriso recolheu, o brilho do olhar tornou-se baço, o coração voltou ao ritmo normal e a única coisa que lhe saiu foi um frio.
À, és tu!
Olá Joana, então tudo bem? Há muito que não te via!
Tudo bem, Samuel, sabes como é, caminhos diferentes, desencontros.
Bem, estás linda! Há muito mesmo que não te via, até já me tinha esquecido como és bela!
A sério? Sempre pensei que fosse inesquecível!
E és, foste a melhor namorada que tive e fui um parvo, mas ás vezes fazemos coisas sem pensar e a única coisa que nos resta é o arrependimento.
Acredita que é verdade, se o arrependimento matasse eu já não estava aqui há muito, mas a vida é feita de erros, temos de viver com eles.
Tens toda a razão, vais para os barcos certo? Posso acompanhar-te até lá, há tanta coisa para pôr em dia.
Podes acompanhar-me claro!
Seguiram então o seu caminho, falando talvez de coisas do passado talvez de coisas do presente ou até do futuro, falaram durante todo o caminho, umas vezes ouvia-se alguém rir, talvez até fossem os dois a faze-lo, mas a verdade é que a conversa parecia estar agradável, nesta coisa de se juntar um ex-namorado com a sua ex-namorada só pode dar nisto, o porto fluvial com partida para o Montijo estava já ao virar da esquina, ele aproximou-se dela e roubou-lhe um beijo, ela deixou-se levar pelo mesmo, mas algo os fez parar quando o andar apressado de um homem que chorava passou por ambos, os olhos do Samuel sorriam, os de Joana não, mas olhavam os dele, soltou-se do beijo e correu para o porto e quem sabe para o barco a verdade é que correu, interiormente sentia-se suja, só pensava no Jorge onde estaria ele o que estaria a fazer?
Jorge limpou as lágrimas e caminhou rua acima, caíra há terra, a dor latente no seu coração, era a única coisa que sentia, afinal ele tinha razão ela tinha outro.
